Como conseguir enfatizar um contexto sócio político e econômico nas cenas de um filme? De uma forma muito bem pensada, os Diretores do filme "O Banheiro do Papa", Enrique Fernández e César Charlone, que também é o Diretor de Fotografia, conseguiram passar naturalmente a realidade do que havia acontecido no ano de 1988, na visita do Papa João Paulo II à cidade de Melo, uma vez que o filme se trata de uma história verídica.
O cotidiano é retratado na maioria das cenas do filme, trazendo a realidade nua e crua aos olhos do espectador, com movimentos de câmera simples e perfeccionistas, uma sonoplastia que se adéqua ao contexto das imagens reproduzidas, sobrepondo-se na maioria as vezes ao som ambiente das filmagens. Resultado de muito trabalho, a estética do filme enfatiza a pobreza, a simplicidade e a esperança do povo que vivia lá. Não há como não sentir a força com que age o som nas cenas, como por exemplo, ao observar o protagonista, ao pedalar sua bicicleta, imaginar-se guiando sua tão sonhada motocicleta, ao som de uma trilha que nos remete à liberdade. O uso demasiado de travellings nas passagens de uma cidade à outra, faz com que o espectador praticamente participe da viagem juntamente com o protagonista, o recurso é reforçado com a movimentação da câmera feito quase todo tempo na mão.
O mesmo não se faz diferente com o tratamento de cor utilizado no filme. Há mudança na cor e na luz, ao passo que trocam se as situações. Essas mudanças ocorrem em três momentos determinantes: em locações internas, como a casa do núcleo familiar protagonista, essa destaca a utilização de cores pastéis (cruas) e pouca iluminação; em cenas feitas no caminho que faz o protagonista para chegar à cidade de Aceguá, onde há a predominância da cor azul e boa iluminação; e nas cenas feitas na própria cidade de Aceguá, onde as cores predominantes são as de tons vibrantes e fortes.
A paisagem dos campos se faz presente, como um personagem, que deixa as cenas menos tensas e causa ao espectador um momento de relaxamento. Ela indica também uma marcação espaço temporal no filme, uma vez que acompanha o andamento do ir e vir dos ditos "kileiros", um tipo de contrabandista, de uma cidade a outra em busca do seu sustento. Na sequência da construção do banheiro existem cenas exemplares no uso desse recurso e de outros, de montagem e filmagem, câmeras altas, angulação subjetiva, cortes , colagens de informações, através de cenas de um telejornal, passagens rápidas, entre outros a constituem e fazem com que o espectador participe de todos os momentos enquanto o banheiro é erguido.
Enquanto o desenrolar da trama acontece, podem-se perceber várias induções ao que pode acontecer posteriormente. São os chamados "blefes" que são utilizados em alguns momentos como quando o protagonista ao pedir dinheiro à sua esposa, fica a observando para ver onde ela o guarda. São indícios que remetem à uma realidade, que induz o espectador a sensação de que o protagonista voltará para pegar o dinheiro que a esposa esconde, o que realmente se confirma. No entanto, esse recurso é utilizado em outros momentos, como por exemplo em cenas em que o adultério entre pai e filha ou de que o protagonista entregará sua filha ao patrulheiro que essa sensação se torna evidente, porém os atos não se confirmam e apenas a impressão fica contida na mente do espectador.
É um filme com um requinte especial, que resgata o sentimento vivido através de imagens realmente marcantes, que ajudam nos levar ao clímax dos acontecimentos e que nos trazem a essências real dos elementos mostrados no filme: a comoção, a emoção e a esperança.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
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